Mulheres Chapada dos Guimarães - MT

Corpos em Festa

Esse trabalho foi um marco na minha vida!


Eu me lembro como se fosse hoje, da Malu me convidando pra fazer um ensaio com o Coletivo Gordas Xômanas, de Cuiabá, e que esse ensaio viraria uma exposição, e como eu fiquei ansiosa, tensa, e absurdamente feliz.

É doido né! Um mix de sentimentos... mas é isso que a Malu faz comigo! Me traz ideias, e me coloca em lugares que nunca estive, me desafiando a todo momento.

Trabalhar com corpos gordos, não sendo uma mulher gorda, é bem delicado e precisa ter muita sensibilidade.

São corpos invisibilizados, negligenciados, maltratados!

A gente quase nunca vê pessoas gordas protagonizando algo, ou estando em lugar de destaque, tampouco em situação de festa e alegria.

O corpo gordo é sempre visto como doente, triste, feio, sujo. E é isso que a mídia, as redes, e toda nossa sociedade gordofóbica faz... coloca esses corpos num lugar onde ninguém deveria estar. E na fotografia isso é ainda mais profundo.

Quantos ensaios de pessoas gordas você costuma ver por ai?

Quantas pessoas gordas que você conhece já fizeram um ensaio fotográfico?

São poucas! 

Essas pessoas sequer cogitam isso, uma vez que o que a gente vê por aí são corpos mais dentro do padrão. Corpos gordos maiores, a gente vê menos ainda. E corpos gordos maiores negres, menos menos menos ainda.

E meu trabalho com a Malu é justamente andar na contramão disso tudo.

É trazer visibilidade pra essa luta, enaltecendo esses corpos que merecem tanto carinho e respeito quanto qualquer outro.

E que responsabilidade essa mulher me deu hein!

A ideia do ensaio foi trazer a leveza e contentamento que essas mulheres vem experimentando no encontro com outras mulheres semelhantes a elas, e como a luta antigordofobia, ainda que muito dolorosa, pode ser cheia de alegria!

Pensamos nos elementos, no cenário, e principalmente nas mulheres que participariam do projeto. 

Cores, frutas, festa, piscina compuseram o conceito do ensaio. Queríamos que fosse leve e gostoso pras mulheres! Um encontro entre amigas que celebram seus corpos.

Fizemos uma reunião entre as manas, e a Malu fez um trabalho incrível de fortalecimento delas. Afinal, só a Malu e Gabi tinham sido fotografadas até então. Era uma experiência nova pra elas, e pra mim, e precisávamos dessa nossa conexão antes do ensaio.

Muitos gatilhos poderiam disparar!

Mas eu quero contar aqui pra vocês sobre como tudo isso reverberou em mim.


Desde que comecei a trabalhar com a Malu e acompanhá-la nos eventos, minha vida mudou. Minha visão sobre mim, meu corpo e minha vida mudou! Eu, que sempre me achei gorda, me vi num lugar totalmente fora disso. Eu não enfrento o que os corpos gordos enfrentam. O que eu sofro (e todas as mulheres sofrem) é com a pressão estética, que tem nada a ver com gordofobia!

E me enxergar como uma pessoa não gorda, e abraçando a causa antigordofobia, foi de uma desconstrução sem tamanho. Encontrar meu lugar foi super desafiador! Como vou falar sobre esse assunto se nem gorda eu sou?

Como vou enxergar beleza em todos os corpos se eu não vejo no meu? Se sou gordofóbica?

Como proporcionar a essas mulheres uma experiência fortalecedora?

Muitos foram (e são) os questionamentos que essa parceria com a Malu me trazem. E é por isso que a cada trabalho nossa ligação fica mais forte, e consigo captar com mais clareza toda a força e luta que ela traz!

Eu fiquei super ansiosa, morrendo de medo!

O que elas iam achar de mim? O que eu ia fazer com elas? Como deixá-las a vontade na presença de uma mulher não gorda? O que eu ia falar?

Várias questões rondavam minha mente, mas uma coisa eu tinha certeza: eu estava na hora certa, e no momento certo. Então eu era a pessoa certa pra esse trabalho.

Nos preparamos, e no dia estavam todas eufóricas. Elas foram se arrumando enquanto a conversa ia fluindo. Elas me trouxeram muitas inseguranças que estavam sentindo, compartilharam histórias tristes e felizes, contaram sobre suas vidas, e quando vimos já estávamos todas rindo muito e se divertindo!

Foi um dia em que mais ouvi do que falei. Precisava escutar aquelas mulheres. Esse é o lugar de fala delas!

O ensaio durou um dia inteiro. Brincamos, demos muuuuita risada, dançamos, pulamos, nadamos!

O resultado foi incrível! E o feedback depois mais ainda.

Ter transposto essa barreira, que é fotografar mulheres gordas juntas, num momento de plena celebração e ressignificação, foi um enorme salto na minha carreira!


Esse ensaio virou uma quase exposição, que só não rolou devido a pandemia. Estava tudo pronto, com data marcada e divulgação a todo vapor...

Mas quer saber? Só de ter proporcionado a elas um momento em que pudessem ser elas mesmas, que pudessem se soltar e se sentirem merecedoras de tanto amor e cuidado, valeu mais que mil exposições!

Cada trabalho é salto quântico!